Perfil

Sou Maria Cristina. Fiz bacharelado e Licenciatura em Ciências Sociais, na PUC-SP, onde também fiz minha especialização em Projetos Pedagógicos com o Uso das Novas Tecnologias e o mestrado em Educação: Currículo (linha de pesquisa Novas Tecnologias e Educação). Professora da SEESP e professora universitária. O blog só tem como objetivo ampliar as discussões em sala de aula.

sábado, 23 de novembro de 2013

Deus me dá o maior medão

Vejam a matéria abaixo.
"Hitchens afirma que Jesus supera Deus em crueldade
O Novo Testamento, o do Deus pai de Jesus, costuma ser citado por cristãos
conscienciosos como uma espécie de upgrade, com menos bugs, do Velho 
Testamento, onde está o Deus mesquinho, cruel e insano. Para Christopher Hitchens,
contudo, o Novo Testamento é mais terrível que o Velho. 
No Velho Testamento, argumenta Hitchens, há o mandado divino para o extermino de 
povos, o que hoje é chamado de limpeza étnica. A morte, nesse caso, é o castigo
derradeiro de Deus a povos como os midianistas e amalecitas. No Novo Testamento,
contudo, o castigo aos ímpios não se finda com a morte e prossegue no inferno por 
toda a eternidade.
Para Hitchens, essa ideia, a mais cruel de todas já feitas, nasceu com Jesus.
"Ele [Jesus] disse pela primeira vez: “Se você não concorda com o que ofereço, saia 
daqui e vá para o fogo eterno", disse Hitchens em novembro de 2007 em uma entrevista
a Elizateh Carvalho para o programa Milênio, da Globo News. Foi quanto o britânico
radicado nos Estados Unidos esteve no Brasil para o lançamento do seu livro “Deus
não é grande – como a religião envenena tudo” (Ediouro, 304 págs.). 
Nesta entrevista, há um pouco da perspicácia e contundência da critica às religiões do 
ateu mais brilhante e polêmico da contemporaneidade que morreu aos 62 anos no dia 15
deste mês vítima de um câncer no esôfago. 

Íntegra da entrevista. 

Christopher, vamos acompanhar um pouco a cronologia do seu livro e voltar a
Dartwood na Inglaterra, onde você era um menino de 9 anos e tinha aulas de
religião com a sra. Jean Watts. Ela parece ter sido a primeira pessoa a ajudá-lo
sem querer a duvidar da existência de Deus. Acho que todos passam por uma
experiência parecida como essa em algum momento da vida. Mas a verdade é que,
independentemente do quão seja dogmática e irracional a religião, bilhões de
pessoas ainda preferem abraçar a fé. Como você explica essa necessidade
incontrolável por Deus? 
Eu só posso dizer que Ele é muito real, muito necessário para milhões de pessoas.
Também temos de admitir que, para muitos de nós, talvez 10%, 15%, essa necessidade
não existe. Mas a senhora Watts não disse nada que eu já não soubesse. Não foi como 
uma revelação no caminho para Damasco. “Eu acreditava em algo, mas agora não
acredito mais.” Ou: “Eu acreditava naquilo e agora acredito nisso.” Foi apenas a 
maneira como descobri que não podia acreditar no sobrenatural. Eu não
acreditava e não podia acreditar. É algo diferente de um momento de convicção ou de
um momento de descoberta.
Mas ainda assim se tornou óbvio para mim, como disse Pascal, “do jeito que fui feito,
não posso acreditar”

Como disse, você escreveu esse livro a vida toda.
É muita gentileza você notar isso com tanta ênfase.

Esse longo caminho que o levou a sua inquestionável objeção à fé religiosa foi
fácil ou doloroso? 
Acho que foi menos doloroso do que a experiência de muitos dos meus amigos cristãos,
muçulmanos e judeus após investiram tantos anos da vida em uma fé que sempre se 
mostrou inútil. Para mim, é um compromisso intelectual, que é tentar fazer as pessoas
entenderem que a melhor vida é a que estuda a razão, ironia, literatura, ciência, humor.
E que há outras coisas que fazem a vida a não valer a pena. Nós não devemos nada à
ditadura do sobrenatural. 

Será que isso tem algo a ver com nossa fragilidade, com a nossa “essência de
vidro”? É uma bela definição do roteirista francês Jean-Claude Carrière, que 
escreveu sobre a nossa “essência de vidro”. 
Para mim, não há dúvidas. Somos uma espécie parcialmente racional que tem
muito medo da morte, do desconhecido, do escuro. Mas também é muito
presunçosadiferentemente do que outros animais. Acreditamos que o universo foi 
criado para nós.  E isso nos convenceu de que nada foi por acaso. Nós temos de ser o
centro, o objeto de tudo. Claro! Entre o nosso medo e o nosso egoísmo, é muito fácil 
vender a religião para nós. É claro que somos o centro de tudo, com o sol girando em 
torno de nossa terra! Nada seria mais provável. É tudo para mim, para moi. 
E é muito difícil perceber que tudo isso é besteira

Seu livro ilustra muito bem como a religião foi prejudicial ao longo dos séculos e
quantas atrocidades foram cometidas e ainda são cometidas em nome de Deus. 
Não em nome de Deus, mas por causa da crença em Deus.

Mas ao mesmo tempo há razões por detrás delas [religiões]. E essas razões são a luta 
constante pela dominação, pela expansão, além do medo constante daquilo que é diferente.
Medo e desprezo pelo que é diferente. Você acredita que, sem a religião, essas lutas
acabariam?
Não. Vou dar um exemplo. O cristianismo copiou o judaísmo. E o islamismo
copiou o cristianismo e o judaísmo. São plágios, mas o monoteísmo é original.
 É a suposta aliança entre Deus e o povo judaico. Segundo os judeus, Deus os mandou
 rezar toda manhã, e os homens têm de dizer: “Graças a Deus que não sou mulher”. 
E as mulheres dizem: “Graças a Deus, eu sou o que sou”. E ambos devem agradecer 
por não serem gentios ou escravos. Mas isso não foi criado por Deus, mas pelos
homens. Pelos "homens", para ser exato, do sexo masculino. Assim eles mantinham as
mulheres em seus lugares. Assim é fácil. Só um idiota não vê isso. Deus não decidiu isso.
Os homens usaram a religião para controlar as mulheres. No entanto, o impulso
 por controlar as mulheres existiria mesmo que não acreditassem em Deus. Só que seria
 mais difícil convencer as meninas de que elas eram propriedade dos homens se não 
dissessem que esse era o desejo de Deus. Dizendo que era o desejo dos homens, elas
 não ficariam surpresas. Dizendo que era a vontade de Deus, elas poderiam aceitar, 
como a exemplo da existência de escravos. Deus quer que haja escravos. É diferente de 
os homens quererem possuir outras pessoas. Então, com o uso da religião, com a 
invenção da divindade, você pode disfarçar o que obviamente seria uma ditadura débil
 e hipócrita criada pelo homem. Então livrar-se da ideia do sobrenatural é um passo
 – apenas um, mas o mais importante –, talvez o primeiro passo, talvez o maior 
passo no caminho para a emancipação. 

Até ler o seu livro, eu não sabia quantas criaturas divinas tinham nascido de virgens 
como a Maria. Você diz Buda, Krishma, Perseu, Hórus, Mercúrio...
Deus civilizados. Eu não conheço nenhum deus na mitologia -- escrevi um
 parágrafo sobre isso -- que não tenha nascido de uma virgem. Seria impossível
 o cristianismo vender a sua religião se não tivesse dado continuidade a essa 
tradição egípcia, asteca, persa, mongol. Até Buda nasceu de um corte no corpo de 
sua mãe. Tudo, menos pelo canal vaginal. Uma via impura. Deus, por alguma razão, 
prefere usá-la como uma mão única.

Isso seria o medo eterno do sexo ou a necessidade de criar, para Deus, uma origem
 diferente do sistema biológica humano?
Com certeza é o medo que a religião tem do sexo. Mas também é a repulsa masculina
pelo que o homem mais deseja. Os homens precisam das mulheres e não gosta do 
fato de que precisam delas. Eles precisam muito delas e odeiam ter de precisar. Eles
repugnam essa necessidade. E a religião transformou isso em um sistema e o torna
sagrado. Minha primeira mulher era ortodoxa grega. Era cristã oriental. Quando ela
menstrua não podia ir à igreja. Não podia receber o sacramento da missa. Acho que isso
também valia para as católicas e com certeza para as judias. E a repulsa pelos fluídos
menstruais femininos é muito comum no islamismo e em outros cultos. Isso vem da 
antropologia humana, não vem do céu, dos planetas, não vem do sol ou da lua. Vem de
formas muito primitivas da antropologia humana. Isso é a primeira coisa é que preciso
saber.

Falemos das três religiões monoteístas. Você mergulhou na leitura das Escrituras,
em uma mesma história contada de três maneiras diferentes. Mas não ficou claro
para mim como vê os três homens mais conhecidos da humanidade: Moisés, 
Maomé e Jesus. Fale sobre eles. 
Moisés é uma figura mítica que foi inventada muitos séculos após a sua suposta
morte. O Torá, a Bíblia judaica, tem aproximadamente quatro autores. O Pentateuco, os
primeiros cinco livros do Velho Testamento,

Moisés inventado? 
Os estudiosos da Bíblia sugerem pelo menos quatro autores que se contradizem e às
vezes se sintetizam. Ninguém, além dos judeus fanáticos, acredita que Moisés foi o autor
do Torá ou que Deus a ditou para ele, o que, nesse caso, ele seria autor de segunda mão.
Maomé, que também teria escrito o livro de Deus – ditado pelo arcanjo Gabriel – não é
um figura tão mítica, tão lendária. Provavelmente ele tenha existido. É bem possível que
tenha existido. Ele está nesse limite, entre a existência e a lenda. Jesus de Nazaré está
ainda mais nesse limite, como Guilherme Tell, Robin Hood e o Rei Artur. Com
certeza, muito do que foi escrito sobre Jesus foi feito, como no caso de Moisés e 
Maomé, séculos após a sua morte por pessoas que evidentemente não o conheceram, 
pessoas muito tendenciosas. Mas o esforço que fizeram para tornar isso realidade sugere 
que houve alguma participação de um personagem histórico. Em todo caso, há o
desenho de criar uma história que fortalece uma crença. 

Como você descreveria Jesus na época em que viveu?
Na melhor das hipóteses, os seus partidários que escreveram sobre ele não concordam
sobre o seu nascimento, sua vida, sua morte e sua suposta ressurreição. Os quatro
evangelhos se contradizem sobre isso. Mas suponhamos que eles tenham tentado fazer 
o melhor possível, havendo concordância em relação à morte horrorosa. Ou não
 horrorosa. Para mim, a pergunta mais importante é: é legítimo que os cristãos
 digam “alguém morreu pelos seus pecados” sendo que essa pessoa na verdade 
não morreu? Imagine uma questão moralmente mais importante: se alguém se joga em
 cima de uma bomba que explodiria em uma sala de aula e absorve o impacto, morrendo
 para salvar as outras pessoas, podemos respeitar isso. E se for diferente, E se essa
 pessoa puder se levantar dois dias depois e disser: “Eu estou ileso”. Isso diminui a
 admiração que temos pelo sacrifício. O cristianismo tem todas essas questões morais
 que não foram resolvidas.

Voltando às escrituras, você disse que o Velho Testamento foi um pesadelo, 
mas o Novo Testamento foi mais cruel.. O que é tem de tão terrível? 

O velho Testamento é um pesadelo porque tem o mandado divino oficial da 
limpeza étnica, como chamamos hoje, a destruição de outros povos. Na verdade,
 é uma limpeza étnica genocida que destrói até a última criança, dos midianistas, dos
 amalecitas e outros. Essas raças deveriam desaparecer. Suas terras deveriam ser 
tomadas. E se houvesse sobreviventes, de preferência moças, elas deveriam ser 
escravizadas e por aí em diante. Era um mandado divino para tudo isto: escravidão, 
genocídio, assassinatos de crianças, etc. E roubo, conquista, desapropriações. 
Imperialismo do pior tipo. Depois que os midianistas, amalecistas e moabitas 
foram destruídos, pronto, eles não sofreriam mais por não serem judeus ou por 
não terem uma aliança com Deus. Mas aí eles já estavam mortos e pronto, não havia 
inferno. Mas, pelo Novo Testamento, eles seriam torturados após a morte, para 
sempre. Essa ideia tão cruel nasceu com Jesus, que disse pela primeira vez: “Se 
você não concorda com o que ofereço, saia daqui e vá para o fogo eterno”. Acho essa
é a ideia mais cruel já proposta na História, hoje muito pregada pelos assassinos suicidas
do Islã. É o ensinamento centro de sua doutrina perversa.

Por outro lado, sua leitura do Corão o fizeram dizer que o Islamismo é ao mesmo
tempo é mais interessante e a menos interessante das religiões monoteístas.
Falemos do que é o mais interessante no islamismo. 
O islã alega ser a culminância. Talvez devemos dizer a “consumação” da “revelações” 
de Abraão, Moisés, Jesus. Ele não as nega, apenas diz que agora Deus as completará
com suas últimas palavras, depois das quais não se precisar questionar mais nada.
Sem mais perguntas porque todas já foram respondidas. Só precisamos reconhecer as
boas novas e nos ajoelhar diante delas. É uma doutrina muito perigosa, é claro, porque
sugere literalmente que a época do questionamento humano chegou ao fim. Que já temos 
as informações de que precisamos. E nada pode ser pior do que isso. A mensagem do 
Corão ainda traz, no fundo, uma ameaça indireta: “Se você não concorda, há 
algo muito errado em você e você precisa entrar na linha”. E as medidas a serem
tomadas devem ser muito severas.

Mas isso também é válido para outras religiões monoteístas? 
Sim, é verdade. O sr. Ratzinger, Herr Ratzinger, o bávaro que se diz “bispo de Roma”, 
e cujos partidários, mas não eu, o chamam de “papa”, disse recentemente que a Igreja
Católica Romana é a fé verdadeira. É claro que ele não poderia dizer outra coisa. Os
ensinamentos da igreja estão aí, e ele quis reafirmá-los porque houve um enfraquecimento
da doutrina cristã. Mas isso é dito desde antes do profeta Maomé. Acho que a diferença
é que os clérigos muçulmanos dizem: “Nos conhecemos a Bíblia [cristã], mas a nossa
vem depois, é a última, é a definitiva”. É mais parecido com o que os cristãos falam
sobre os judeus. Ou dizem que eles [judeus] fizeram tudo errado, que mataram Cristo,
que são hereges; ou os veem com bons olhos e dizem que agiram bem, que inventaram
o monoteísmo e que só precisam entender que o Messias já veio, que precisam mais
esperá-lo. Para mim, como ateu, todas as religiões são falsas. Elas são falsas do
 mesmo modo: preferem a fé à razão. 

Há um capítulo muito interessante no seu livro, o mais generoso, eu diria, no
qual você faz a pergunta: “As religiões fazem as pessoas se comportarem
melhor?” E surpreendentemente você diz sim quando fala de Martin Luther
King.
Não, eu digo que não. Lamento.

Eu entendi que você... 
O que eu disse é que a luta pelos direitos civis dos afro-americanos, dos negros 
americanos, estava pronta muito antes de o dr. King nascer e foi criada por ateus,
leigos e negros. 

Você reconhece o papel importante que ele teve? 
Retoricamente, a justificativa para o racismo e a escravidão era cristã, 
especialmente a cristã. É muito inteligente, retoricamente, poder usar a linguagem do 
cristianismo dialeticamente, mas não ajuda a provar que o racismo e a escravidão são
 moralmente condenáveis. Nos termos do Velho e do Novo Testamentos, 
eram um caso encerrado. É apenas uma grande vitória da propaganda: uma vitória
retórica porque a religião nunca fez ninguém se comportar melhor. Mas certamente
não poderemos dizer que religião não fez as pessoas agirem pior ou não poderíamos
usar a justificativa cristã para a escravidão por mais de 200 anos e a justificativa judaica
antes disso. Todas as justificativas para a escravidão são religiosas. 

Você pertence a um pequeno e seleto grupo de evolucionista que propõe um
Iluminismo renovado, centrado no homem. Pessoas como Richard Dawkins e 
Daniel Dennett, que se chamam de brights, iluminados. 
Vou definir assim: eu não posso dizer que tenho uma luz interna. Se você disser que vê
 isso em mim, eu fico honrado. Mas eu não posso dizer que você deve me ver assim
 porque seria arrogante de minha parte. O centro do sistema é o ser humano ou a 
humanidade. Passamos muito tempo tentando mostrar às pessoas que foi a igreja
 que nos quis convencer de que o universo todo girava ao nosso redor. Por isso
 não gostavam do Galileu. Queriam que acreditássemos que o Sol girava em torno da 
Terra, que o universo todo estava centrado em nosso globo. Nós dizemos às pessoas 
ao contrário. Nós não estamos nem na periferia distante do universo conhecido. É hora 
de entendermos como nosso papel nisso tudo é pequeno. Só quando tivermos um senso
 de proporção é que provavelmente poderemos ver isso de forma racional.

Mas a “luz interior” também é uma definição de Deus. E há outras. Por exemplo, 
eu peguei do filósofo de esquerda Toni Negri, que não é exatamente um homem
 religioso. Ele diz que a única definição possível para Deus é o excesso, a 
superabundância, a alegria. 
Nós não usamos a razão o suficiente. Nós negligenciamos nossas faculdades, do
raciocínio, questionamento e ceticismo. Nós não a usamos de mais, nos a usamos de
menos. Será um grande dia quando isso existir em abundância.

De todo o modo, podemos acreditar que a humanidade está evoluindo em direção
a esse esclarecimento? 
Não acho que a humanidade esteja evoluindo.

Nem um pouco? 
Não. Acho que no momento estamos regredindo. As forças da teocracia crescem
muito rápido. E de modo mais confiante. E com mais violência e mais adeptos que as
forças da razão. O período do esclarecimento humano pode parecer uma fração de
segundo muito breve, muito pequena na evolução humana, entre o ano de 1680 e hoje.
E talvez esteja para sofrer uma eclipse.

Muito obrigada sr. Christopher. Foi muito bom conversar com você."
Leia mais em http://www.paulopes.com.br/2011/12/para-christopher-hitchens-jesus-supera.html#ixzz2lVEwCIJS

Nenhum comentário:

Ocorreu um erro neste gadget

bolinhas bolinhas