Perfil

Sou Maria Cristina. Fiz bacharelado e Licenciatura em Ciências Sociais, na PUC-SP, onde também fiz minha especialização em Projetos Pedagógicos com o Uso das Novas Tecnologias e o mestrado em Educação: Currículo (linha de pesquisa Novas Tecnologias e Educação). Professora da SEESP e professora universitária. O blog só tem como objetivo ampliar as discussões em sala de aula.

domingo, 26 de maio de 2013

Para Nunca Esquecer

Este relato foi elaborado para postagem neste blog. a meu pedido, pela querida Maria Helena Soares de Souza. Maria Helena elaborou outro texto relatando a luta, a prisão e as torturas pelas quais seu tio Mané passou. Mas neste apresenta sua memória afetiva que guarda de seu tio.


Tio Mané
            Sábado à noite, dia 17 de novembro de 1992,  meu pai telefonou animado:
-- Guerrilheiros do Bexiga, sua mãe e eu demos uma entrevista para a revista Veja a respeito do Mané.
--Por que, pai? Alguma novidade?
--Não sei direito. Parece que um militar resolveu abrir a boca e como o seu tio é um dos desaparecidos mais envolvidos em silêncio, vieram buscar dados familiares da época do desaparecimento.  Compre a revista, leia e me telefone.
            E foi o que fiz. Meu pai estava quase cego e teria dificuldade para ler com certa rapidez o que saiu publicado. Revista na mão. Li como meu pai, quase cega de dor, o que nunca ousaríamos pensar a respeito do desaparecimento de Elson Costa, o tio Mané – codinome de foragido político, Manuel de Souza Gomes -, irmão da minha mãe, nosso herói na adolescência.
            Sua foto na revista não conta como eram os seus olhos azuis, sempre valorizados por camisas da mesma cor, rosto bonito, feições serenas. Possuía a terrível dicção familiar, que mesmo embolada não conseguia abafar o discurso claro, muitas vezes inflamado, idealista e considerado ingênuo por nós, porque ele era dirigente do Pecezão – do Comitê Central do Partido Comunista Brasileiro – e militante desde os 17 anos. Nem as torturas pelas quais tantas vezes passara, sem marcas visíveis, e nunca relatadas. Justificava:
---Falar sobre tortura não acrescenta nada. Precisamos de consciência, conhecimento e não de heroísmos. Da memória, da história. O indivíduo olha para frente, para seus pares e os que virão a ser.
            E nós ouvíamos isso carregados de amor por ele, mas com a prepotência da juventude, pensado: “ Melhor seria não estar no Pecezão,   que é burro, pouco revolucionário, cego. Já fez até acordo com o Ademar de Barros, como aceitar uma coisa assim? Creio nos meus amigos do curso de Física, assaltantes de bancos, guerrilheiros. Isso sim, é revolução.”
            Ele viveu dos 17 anos aos 61 na clandestinidade, com a tia Aglaé, que havia sido filha de Maria e passou a fazer discursos comunistas em fazendas e portas de fábrica. La Passionária mineira – como a chamávamos de brincadeira - , olhos grandes, riso aberto. Em 1969 tive um convívio bastante estreito com ela, que se abrigou durante quase um ano em minha casa, em Niterói, por conta de mais uma das prisões do Mané. Vi o que pode ser uma parceria afetiva, na mulher que optou por não ter filhos e pouca convivência com a família, apostando no parceiro e na mudança do país. Aprendi também como eles haviam se transformado em pessoas tão instruídas: passada a fase da tortura, os presos políticos organizavam-se, estudavam e ensinavam tudo o que sabiam aos outros presos. Direito, economia, política, filosofia, literatura, medicina, psicologia e o que mais surgisse para ler. Decoravam livros como em Fahrenheit 451 para não esquecê-los e transmiti-los, se não os tivessem nas mãos. Tia Aglaé fazia a mesma coisa com os jornais, levando junto com doces e afeto, na única visita semanal, o mundo de fora, decorado letra a letra para a notícia ser a mais próxima possível do real. Tarefa árdua, executada com prazer, na espera ativa. Sem queixas.
            Depois que  tio Mané saiu da prisão, em 1971 encontramo-nos com ele algumas vezes, o laço com os dois estava mais forte. Tínhamos conversas afetuosas e provocativas:
---Casei com a Aglaé por causa dos joelhos dela. São lindos.  Mulheres com joelhos redondos são boas de cama.
E ria escandalosamente do embaraço causado.
---Não me fale em revolução, sua burguesinha. Você só a fez em passeatas, não sabe o que é ser mesmo um revolucionário. Eu sei. Sou dela em tempo integral. Aprenda a pensar. Seja revolucionária criando filhos que saibam ver.
E beijava meu primeiro bebê. “Pito” e mel, muito mel.
            Não consegui isso, tio Mané. Os meus filhos não são reacionários, têm até uma pontinha de esquerda, mas são cegos para muita coisa. Como eu, que não vi o quanto a sua revolução era real e perigosa para a Ditadura. Acreditavam nisso e o executaram.
            Quase nebuloso, como em pesadelo em branco e preto, lembro seu último desaparecimento, em janeiro de 1975. A procura. Noites em hospitais, polícia, necrotérios. Sobrinhos desconsolados. Os anúncios no jornal que Rui Mesquita publicou, de graça, contando o seu desaparecimento. Apenas pediu para dizermos que eram pagos. Telefone grampeado, a família vivendo sob pressão.  O pessoal do DOPS na casa da minha mãe. Lembranças que não brilham como a de um almoço na minha casa:
---- Copos de vinho tinto e bacalhau. Revolução é isso: o melhor, não o mínimo, para todos. Um comunista ama a vida porque ama as pessoas, ouve suas músicas, dança com elas. Ama também azeitona sem caroço. Você cozinha bem mesmo, ou já é meio comunista?
            Pode alguém assim ser torturado com tanta violência? Sua execução já estava resolvida. Um tiro, então, não a barbárie do fogo. Ele era contra a violência.
----- Não importa se passei por tortura. O que importa é a vida humana, o direito de viver bem. Não posso aceitar que o preço a ser pago é ceifar vidas humanas. Amo as pessoas e também a vida.
            Assisti à minha mãe dando uma entrevista na televisão. Ela estava em paz, foi o que disse. Acabou a espera. Não precisava mais olhar o rosto de todos os mendigos velhos, nem visitar asilos de pobres considerados loucos para reconhecê-lo e cuidar dele. Nem rezar todas as noites para que ele voltasse, ou que tivesse fugido para outro país, mesmo sem levar a sua companheira leal.  Ela exprimiu claramente a sua dor ao dizer ao repórter “sempre tive um pouco de esperança que ele reaparecesse, mas depois de tantos anos é triste parar de acreditar nisso.”.
            Para mim, na época, nenhuma compreensão da dimensão do fato, do tempo, do ato, da história.
            Assisti proximamente, pela televisão, a um pedaço da entrevista dada pelo Ustra[1] e vi também o sargento Marival [2]. Foi um soco no peito ouvir a voz de quem só conhecia por fotos e lembrar-me de seus relatos. Ele estava lá, no meio dos torturados!
Ainda não sei ver direito, tio Mané. Sou apenas uma sobrinha. Com muito ódio pelo que passou e muito amor por você.
Quisera não ter vivido aquele dia. Que bom foi ter convivido com você.



[1] Carlos Brilhante Ustra chefiou o DOI-CODI entre 1970 e 1974. Entre 70 e 75, os presos mortos no DOI-CODI em São Paulo foram 50. Ustra, foi ouvido em 11/05/2013 na  sessão da Comissão da Verdade, mas não teve coragem de assumir as torturas por ele comandadas.
[2] Marival Dias Chaves do Canto em 18/11/1992,  ex-sargento e ex-agente dos órgãos de informação do Exército, que relatou terríveis e esclarecedores fatos sobre a barbárie dos porões da ditadura.



*** Maria Helena Soares de Souza é graduada em Matemática, Doutora em Educação, Coordenadora técnica de Projetos na Fundação Padre Anchieta, São Paulo

2 comentários:

Gabriela Marega disse...

Sem palavras, Maria Helena.... ( Gabi Marega)

Gabriela Marega disse...

Sem palavras, Maria Helena.... ( Gabi Marega)

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