Perfil

Sou Maria Cristina. Fiz bacharelado e Licenciatura em Ciências Sociais, na PUC-SP, onde também fiz minha especialização em Projetos Pedagógicos com o Uso das Novas Tecnologias e o mestrado em Educação: Currículo (linha de pesquisa Novas Tecnologias e Educação). Professora da SEESP e professora universitária. O blog só tem como objetivo ampliar as discussões em sala de aula.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Luz do Luar, de Gil, bela análise de Vital (iluminando a alma)

Fiquei afastada algum tempo. duas semanas sem postar. Muito trabalho, dois cursos em andamento, e etc etc etc.
Retomo o blog com um correio enviado por meu amigo Vital Pasquarelli Junior (autorizadíssima por ele), colega da UNIVESP/UNESP, antropólogo, gente bacana, sensível.

"meu canto na escuridão
minha voz, meu amparo
aro de luz, nascente do dia
brota na gruta da dor
mãe da manhã
de tudo eu faria
pra conservar Vosso Amor
a cada ano uma romaria
uma oferenda
uma prenda
uma flor
a cada instante um grão de alegria
lembranças do Vosso Amor
Santa Virgem Maria
Vós que Sois Mãe
do Filho do Pai
do Nascer do Dia
abençoai minha voz
meu cantar
na escuridão dessa nostalgia
dai-nos a luz do luar
meu canto na escuridão
minha voz, meu amparo
aro de luz
nascente do dia
brota na gruta da dor
mãe da manhã
de tudo eu faria
pra conservar
Vosso Amor
a cada ano
uma romaria
uma oferenda
uma prenda
uma flor
a cada instante
um grão de alegria
lembranças do Vosso Amor
Santa Virgem Maria
Vós que Sois Mãe
do Filho do Pai
do Nascer do Dia
abençoai minha voz
meu cantar
na escuridão dessa nostalgia
dai-nos a luz do luar
dai-nos a luz
hunhunhun
dai-nos a luz
hunhunhunhun
dai-nos a luz
luz do luar
dai-nos a luz
luz do luar
dai-nos a luz do luar
(mãe da manhã
gilberto gil)

Caros amigos,

Bem, eu disse que ia voltar associando músicas com a segunda crônica do Contardo [que está repetida adiante]. Serão duas músicas do Gil. Por ora, ou seja, aqui, é só a primeira delas.
Na crônica, o Contardo diz:

"... não estou convencido de que, para viver, seja necessário que a vida tenha um sentido. Quando alguém se queixa de que sua vida é sem sentido, não tento interessá-lo em grandes razões para viver. Prefiro perguntar (para ele e para mim mesmo) de onde surge tamanha necessidade de um sentido. É curioso que, para alguns, a existência precise de uma justificação, de uma razão, de uma causa, de uma visão de futuro.

Em regra, essa necessidade de justificar a vida se impõe quando a própria vida não se basta mais. Ou seja, é quando os gestos cotidianos perdem sua graça que surge a obrigação de fundamentar a vida por outra coisa do que ela mesma." [Grifo meu.]

Eu acho que procede o que ele afirma no segundo parágrafo acima: quando há muita sede de sentido, de busca de sentidos totalizantes, seria indício forte de que os gestos cotidianos perderam sua graça, de que a vida se arrasta – a “depressão” está rondando.

Porém, acabo de receber, nesta madrugadinha insone, um e-mail de uma amiga, a Cris, de Pira City, lembrando as seguintes facetas que, acredito, muitos de nós vivem às voltas com o sentido da própria vida:

"O meu mundo não é como o dos outros,
Quero demais, exijo demais,
Há em mim uma sede de infinito,
Uma angústia constante que nem eu mesma compreendo,
Pois estou longe de ser uma pessimista;
... Sou antes uma exaltada, com uma alma intensa, violenta, atormentada.
Uma alma que não se sente bem onde está, que tem saudade... Sei lá de quê!"

Florbela Espanca

Acho que essas facetas inquietas, angustiadas, que Florbela agudamente nos lança, ficaram um tanto acomodadas demais no approach de Contardo. [Vamos dar um desconto: é apenas uma crônica de jornal, e acho que é boa.]

Então, vamos ver se dá pra juntar, de certas maneiras, a saudade atormentada “de sei la de quê”, de Florbela, com a canção do Gil, e com a crônica.

Uma observação preliminar: Mãe da Manhã, do Gil, não pode ser considerada uma música de filiação religiosa, no caso, católica. Esta é outra ressalva a ser feita na crônica do Contardo quando ele se refere ao declínio das religiões instituídas. No Brasil, penso eu, as coisas são um pouco diferentes. Mãe da Manhã alimenta-se do registro do catolicismo popular, que se desenvolveu em larga autonomia quanto aos cânones da Igreja Católica. E o catolicismo popular é muito mais que religião no Brasil, é matriz cultural de referência integradora de várias culturas (indígenas e africanas).

[Diria que atualmente o Brasil vive uma crise talvez até mesmo ao revés do que Contardo diz a respeito das religiões instituídas: em função do crescimento das denominações evangélicas e pentecostais, parece haver recrudescimento institucionalizante. Mas isto é uma palpitaria deslavada e não mais que isso.]

Em outras palavras, o catolicismo popular, e todos os seus sincretismos religiosos, se desenvolveram, ao longo da formação da sociedade brasileira, ora em acomodação, em um vácuo de institucionalização, ora em tensão diante das tentativas institucionalizantes da Igreja Católica. A Igreja capitalizou certas devoções populares, como Aparecida, Padre Cícero e outras; refutou várias outras, dentre elas várias aparições marianas. Nem por isso as devoções populares deixaram de seguir em frente, firmes, caminhantes pelos próprios pés, cantantes e festejantes.

Mãe da Manhã traz o registro desse catolicismo popular sincrético, e seu grande centro devocional – Maria -, nas formas das artes de um compositor (letra e melodia) e de uma das maiores intérpretes do país (Gal Costa). Não se trata, portanto, somente do registro do catolicismo e da fé popular.

É possível dizer que Gil talvez seja, dentre os compositores brasileiros, aquele que teria um pezinho mais próximo do que Contardo chama de “new age”. Várias letras de Gil falam do espírito, e com muita felicidade e leveza. [“Nos meus retiros espirituais, descubro certas coisas tão normais...”] Mas é bem melhor não ir por aí; não há o menor interesse em trazer o rótulo de “new age” para falar do que gostaria de falar da associação entre a crônica e a música.

Já li uns livros (inclusive premiados) sobre a espiritualidade “new age”, e confesso que neles não encontrei uma expressão tão direta e boa quanto a de Contardo na crônica:

“O esoterismo "new age" nos garante que a vida tem um sentido misterioso, que a gente nem precisa saber qual é. Melhor assim, não é?”

Pois é, Mãe da Manhã não elimina o sentido misterioso, e também não se põem em atitude de desvendá-lo cognitivamente para que a vida tenha sentido. E já que não elimina o misterioso, também não se afina com os dois parágrafos finais da crônica de Contardo, em que é citada a conclusão de Agambem: que seria a de que deveríamos viver a vida como uma iniciação à própria vida e à sua ausência de mistério.

Afinal, do que nos fala a canção do Gil e como nos fala o modo como Gal a canta?

Entendo que o compositor fala do seu próprio canto como a luz em que se agarra como quem se agarra à vida, como quem espera o aro de luz, a nascente do dia que há de brotar, e sempre brota, das grutas da dor. Esses são sentidos da experiência de viver. E pede, suplica, a Ela, o amparo à sua voz, ao seu cantar, na escuridão dessa nostalgia. A nostalgia, com certeza, tem tudo a ver com a vida hoje, aqui e agora, estar pesada e sem graça.

O canto que é aro de luz que brota nessa escuridão seria, acho, parecido com a saudade de “nem sei de quê” - saudade essa ainda mais intensa em almas artísticas mais atormentadas. (Sorte delas se são artísticas e se têm religiosidade, o que é bem diferente de adesão a uma fé religiosa, na acepção que Contardo usa na crônica, e que penso que ele deveria ter escrito como adesão a crenças religiosas. A fé é mais pessoal, mais sutil e, ao menos para mim, é algo que tenho como mais próxima da religiosidade e não das religiões ou sistemas de crenças instituídos.)

E como é intensamente vivo o canto de Gal! Há súplica, como pede a letra, mas não há a menor sombra de comportamento submisso ou beato. É o canto de um sujeito dos sentidos da experiência do próprio viver. É canto de busca, espera e espreita; de pedido de amparo e de certeza de que à sombra se sucede o nascer da luz. E fala do modo certo de caminhar para que assim se suceda: colhendo grãos de alegria, em gratidão, a cada instante, no canto, que é amparado por Ela, a Mãe do Filho do Pai do Nascer do Dia.

Lamento, mas não sei dizer nada a respeito de como passar isso para adolescentes em crise de falta de sentido da vida. Apenas desconfio que se os adultos cantam músicas assim e desse modo, alguma coisa boa provavelmente passa para eles – quem sabe em pequenos interregnos no pingue-pongue das acusações de falta de sentido na vida do outro.

E, para mim uma coisa é muito certa: essa música me faz um bem danado. Lembra-me da minha própria mãe cantando cânticos em louvor a Maria. São lembranças maravilhosas. Certezas do misterioso amparo de que, quando há duras épocas de faltas de sentido, sucederão retomadas do sentido da própria experiência de viver.

Abraços y beijos,
Vital

CONTARDO CALLIGARIS
O sentido faz falta?

A gente procura um sentido para a vida somente quando o cotidiano perde sua graça e seu encanto

É uma queixa frequente: o mundo e a vida fazem pouco sentido -muito menos sentido do que antigamente, completam os saudosistas.

Nas famílias, às vezes, essa queixa produz uma espécie de pingue-pongue. Os pais acham que os filhos adolescentes vivem por inércia, sem rumo e projeto: "Eles não estão a fim de nada que preste, não têm uma causa, uma visão de futuro".

Os filhos, confrontados com essa preocupação dos pais, declaram que, se precisassem mesmo de um sentido para viver, certamente não é com os pais que eles o aprenderiam: "Mas qual sentido gostariam que eu escolhesse para minha vida, se a vida deles não tem nenhum?".

Nesse diálogo, o sentido parece ser sempre o que falta na vida dos outros que criticamos.

Também existem indivíduos (adolescentes e adultos) que se queixam da falta de sentido em sua própria vida: "Viver para quê? Todo o mundo vai morrer de qualquer jeito; que sentido tem?".

Geralmente, ao procurar responder a essas constatações desconsoladas, amigos, parentes e terapeutas agem como os pais que mencionei antes: querem injetar uma causa, uma visão de futuro na vida de quem lhes parece ter perdido o rumo "necessário" para viver.

Agora, eu não estou convencido de que, para viver, seja necessário que a vida tenha um sentido. Quando alguém se queixa de que sua vida é sem sentido, não tento interessá-lo em grandes razões para viver. Prefiro perguntar (para ele e para mim mesmo) de onde surge tamanha necessidade de um sentido. É curioso que, para alguns, a existência precise de uma justificação, de uma razão, de uma causa, de uma visão de futuro.

Em regra, essa necessidade de justificar a vida se impõe quando a própria vida não se basta mais. Ou seja, é quando os gestos cotidianos perdem sua graça que surge a obrigação de fundamentar a vida por outra coisa do que ela mesma.

Nota clínica: a depressão não é o mal de quem teria perdido (ou nunca achado) uma grande razão para viver. Depressão é ter perdido (ou nunca encontrado) o encanto do cotidiano. Por consequência, tentar "curar" a depressão de um adolescente propondo-lhe militância política ou fé religiosa é nocivo: se a gente conseguir capturá-lo num grande projeto, esse mesmo projeto o afastará ainda mais da trivialidade do dia a dia, cujo encanto ele perdeu.

Resumindo, quando alguém se queixa de que a vida não tem sentido, o problema não é ajudá-lo a encontrar o tal sentido da vida, mas ajudá-lo a descobrir que a vida se justifica por si só, que ela pode ser seu próprio sentido.

A cultura moderna poderia ser dividida em dois grandes blocos (que não coincidem com as tradicionais divisões de esquerda vs. direita etc.): os que pensam que o sentido da vida não está na própria experiência de viver (mas na espera de um além, num projeto histórico etc.), e os que pensam que a experiência de viver, por mais transitória que seja, é todo o sentido do qual precisamos (nota: a psicanálise, inesperadamente, está nesse segundo grupo, por constatar que a gente sofre mais frequente e gravemente pelo excesso do que pela falta de um sentido).

Alguém dirá que, com o declínio das utopias políticas e algum avanço (talvez) do pensamento laico, o sentido da vida está em baixa. Em suma, eu estaria chutando um cachorro morto.

Não concordo: talvez a própria crise das utopias e de algumas religiões instituídas esteja reavivando uma espiritualidade que tenta sacralizar o mundo, prometendo, no mínimo, sentidos ocultos.

O esoterismo "new age" nos garante que a vida tem um sentido misterioso, que a gente nem precisa saber qual é. Melhor assim, não é?

Acabo de ler um breve (e delicioso) ensaio do filósofo italiano Giorgio Agamben, "La Ragazza Indicibile" (a moça indizível, Electa, 2010). Agambem (retomando um ensaio de Jung e Kerényi, de 1941, sobre Koré, a moça sagrada -Perséfone na mitologia clássica) mostra que os mistérios de Eleusis (que são os grandes ascendentes do esoterismo ocidental) de fato não revelavam nenhum grande sentido escondido das coisas e da vida -a não ser talvez o sentido de uma risada diante do pouco sentido do mundo.

Ele conclui com a ideia de que podemos e talvez devamos "viver a vida como uma iniciação. Mas uma iniciação ao quê? Não a uma doutrina, mas à própria vida e à sua ausência de mistério".
ccalligari@uol.com.br

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